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Da pandemia ao Estreito de Ormuz: um mundo que vai de crise em crise — quem realmente paga o preço das perturbações econômicas?

A COVID-19, a guerra na Ucrânia e as perturbações no Estreito de Ormuz acumularam dívida, inflação e investimentos perdidos. Quem, afinal, paga por uma economia global que já não tem tempo de se recuperar entre um choque e outro?

Da pandemia ao Estreito de Ormuz: um mundo que vai de crise em crise — quem realmente paga o preço das perturbações econômicas?

© S. Dahani (AI illustration)

Resumo Rápido

Ideal paraLeitores que querem entender como os choques sucessivos chegam ao orçamento das famílias.
Por que isso importaCada crise começa antes que a conta da anterior tenha sido paga, e assim a dívida e os preços se acumulam.
Fique atento aSe os preços caem tão rápido quanto os custos é algo que precisa ser verificado setor por setor, com evidências sobre margens e concorrência.

Em apenas alguns anos, a economia global enfrentou uma sucessão extraordinária de choques: a pandemia de COVID-19, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia e, depois, a escalada do conflito no Oriente Médio, acompanhada de graves perturbações no Estreito de Ormuz.

Esses eventos são fundamentalmente diferentes. Uma pandemia não é uma guerra, e uma crise energética não opera pelos mesmos mecanismos que uma emergência de saúde pública. Ainda assim, suas consequências econômicas acabam convergindo: gastos públicos excepcionais, cadeias de suprimentos interrompidas, energia mais cara, inflação, aumento da dívida, crescimento mais fraco e pressão crescente sobre o poder de compra das famílias.

Isso levanta uma questão fundamental: a economia global está realmente passando de uma crise a outra, ou está acumulando as consequências de cada crise sem ter tempo suficiente para se recuperar da anterior?

COVID-19: quando salvar vidas também significou salvar a economia

A pandemia foi, ao mesmo tempo, um choque sanitário, humano, econômico e fiscal.

A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 14,9 milhões de mortes em excesso estiveram direta ou indiretamente associadas à COVID-19 somente em 2020 e 2021. Essa estimativa supera significativamente o número de mortes atribuídas oficialmente de forma direta à doença e ilustra a escala extraordinária da crise.

Os governos responderam à paralisação repentina de grande parte da atividade econômica com medidas igualmente extraordinárias. Segundo o Fundo Monetário Internacional, as medidas fiscais anunciadas no mundo em resposta à pandemia haviam chegado a aproximadamente US$ 16 trilhões até 2021.

Esses recursos apoiaram sistemas de saúde, famílias, trabalhadores e empresas diante de circunstâncias sem precedentes na era moderna.

A intervenção era necessária. Mas também deixou um legado: déficits maiores, dívida pública mais alta e menor margem de manobra fiscal em muitos países.

Em outras palavras, quando a emergência sanitária começou a recuar, seu custo econômico não desapareceu com ela.

Depois veio a guerra na Ucrânia

Em fevereiro de 2022, quando o mundo mal saía da fase mais aguda da pandemia, a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia desencadeou mais um grande choque.

Desta vez, as consequências se espalharam sobretudo pela energia, pelos grãos, pelos fertilizantes, pelos transportes e pelo comércio internacional.

A Europa precisou reorganizar uma parte significativa de seu abastecimento de energia. Os mercados agrícolas enfrentaram nova pressão. Os orçamentos públicos foram novamente acionados para financiar defesa, assistência internacional, apoio às populações deslocadas e medidas destinadas a proteger famílias e empresas da alta dos preços.

E o custo continua a se acumular.

Em fevereiro de 2026, uma avaliação conjunta do Governo da Ucrânia, do Banco Mundial, da Comissão Europeia e das Nações Unidas estimou as necessidades de reconstrução e recuperação da Ucrânia em quase US$ 588 bilhões ao longo da próxima década.

Parte desses recursos virá inevitavelmente de governos e instituições internacionais que precisam, ao mesmo tempo, financiar outras prioridades: saúde, educação, infraestrutura, transição energética, adaptação climática e redução da pobreza.

Isso revela uma dimensão menos visível de toda grande crise:

O custo de uma crise não se limita ao dinheiro gasto. Ele também inclui o que poderia ter sido financiado com esse dinheiro.

Ormuz: quando alguns quilômetros podem afetar a economia global

A crise no Oriente Médio acrescentou mais uma camada de vulnerabilidade.

O Estreito de Ormuz é uma passagem crucial para os fluxos globais de energia. Uma perturbação grave ali pode, portanto, afetar muito mais do que apenas os países produtores e consumidores de petróleo.

Em junho de 2026, o Banco Mundial estimou que as perturbações ligadas ao fechamento do Estreito haviam afetado significativamente os mercados de energia. A instituição projetou um preço médio do petróleo Brent de US$ 94 por barril em 2026, 36% acima do nível de 2025, partindo do pressuposto de que as perturbações mais graves diminuiriam gradualmente.

Por que isso deveria importar a praticamente todos?

Porque a energia está presente em praticamente tudo.

Petróleo mais caro → custos de transporte mais altos → custos de produção mais altos → bens importados mais caros → pressão sobre os preços de alimentos e produtos industriais → menor poder de compra das famílias.

Os fertilizantes oferecem um exemplo particularmente revelador. Fertilizantes mais caros podem ser repassados à produção agrícola e, com algum atraso, aos preços dos alimentos.

Em junho, o Banco Mundial projetou uma desaceleração do crescimento global para 2,5% em 2026, ante 2,9% em 2025, enquanto a inflação global deveria subir para 4%.

Mas por que os preços nem sempre voltam a cair?

Esta pode ser uma das questões econômicas mais importantes deixadas por essa sucessão de crises.

Durante a pandemia, muitos aumentos de preços foram explicados por escassez, fechamento de fábricas, interrupções no transporte internacional e custos de frete excepcionalmente altos.

Algumas dessas pressões depois desapareceram ou diminuíram consideravelmente.

No entanto, os consumidores muitas vezes descobrem que a normalização de um custo não significa automaticamente a volta ao preço de varejo anterior.

Isso não significa que todo aumento de preço persistente seja artificial ou injustificado. Os preços dependem de muitos fatores: salários, energia, matérias-primas, taxas de câmbio, aluguéis, tributação, custos de financiamento, concorrência e mudanças na demanda.

Mas isso levanta uma questão econômica legítima:

Os preços reagem tão rapidamente quando os custos caem quanto quando os custos sobem?

Se uma empresa de transporte aumenta suas tarifas quando o preço do petróleo sobe, o que acontece quando ele cai?

Se um fabricante aumenta os preços porque uma matéria-prima essencial ficou escassa, quanto desse aumento desaparece quando o abastecimento se normaliza?

E quando vários aumentos sucessivos se incorporam aos preços, eles podem acabar estabelecendo um novo patamar de referência que o mercado simplesmente aprende a aceitar?

Essa questão deve ser diferenciada de acusações genéricas de “lucros excessivos”. Ela precisa ser investigada setor por setor, com base em evidências sobre margens, custos de insumos, concentração de mercado e concorrência.

O custo invisível: quando o dinheiro muda de destino

Há outra consequência que recebe menos atenção.

Os governos operam com recursos limitados.

Quando ocorre uma emergência, as prioridades precisam mudar.

Durante a COVID-19, trilhões de dólares foram mobilizados para evitar um colapso sanitário, social e econômico. Em seguida, os governos tiveram de responder ao choque energético, à guerra na Ucrânia e ao aumento dos gastos com segurança e defesa.

Hoje, mais uma grande perturbação energética volta a exigir intervenção.

Mas um bilhão de dólares destinado a uma emergência não pode, ao mesmo tempo, financiar outra política pública.

Os economistas chamam isso de custo de oportunidade.

A verdadeira conta das crises sucessivas, portanto, não se encontra apenas nos déficits orçamentários. Ela também pode estar escondida em um projeto de infraestrutura adiado, em uma transição energética atrasada, em um investimento em educação postergado ou em uma dívida adicional que terá de ser paga durante anos.

E o meio ambiente?

Esse paradoxo é particularmente importante.

As mudanças climáticas exigem investimentos enormes e contínuos. No entanto, as crises repetidas obrigam os governos a priorizar as emergências imediatas.

Quando uma crise energética ameaça o abastecimento, garantir a energia torna-se naturalmente a prioridade imediata. Quando uma guerra eclode, os gastos com segurança aumentam. Quando uma pandemia chega, a saúde e a proteção econômica passam para o início da fila.

Cada decisão pode ser racional quando considerada isoladamente.

Mas seu acúmulo pode atrasar investimentos cujos benefícios se medem em décadas.

O mundo enfrenta, portanto, um paradoxo:

Estamos gastando somas enormes para reparar as consequências das crises de hoje, ao mesmo tempo em que ainda precisamos financiar a prevenção das crises de amanhã.

Quem paga, afinal?

A resposta é complexa.

Os governos pagam por meio de seus orçamentos.

As empresas pagam por meio de custos de produção e de abastecimento mais altos.

Mas uma parcela significativa da conta acaba chegando às famílias, por meio de preços mais altos, crédito mais caro, tributação presente ou futura, pressão sobre os serviços públicos e crescimento econômico mais lento.

E o ônus raramente é distribuído de forma igual.

Preços mais altos de alimentos ou energia podem ser um incômodo para uma família abastada. Para uma família que já gasta grande parte de sua renda com necessidades essenciais, o mesmo aumento pode se tornar uma séria restrição financeira.

Os países de renda baixa e média também costumam ter menos capacidade fiscal para absorver esses choques.

A economia global se tornou uma economia de crises?

COVID-19. Ucrânia. Oriente Médio. Ormuz.

É tentador examinar cada evento separadamente.

Mas seu verdadeiro significado econômico pode ficar mais claro quando eles são colocados na mesma linha do tempo.

Uma crise começa antes que a conta da anterior tenha sido totalmente paga.

A dívida se acumula. O investimento é redirecionado. Alguns preços se estabilizam em níveis mais altos. As empresas reestruturam suas cadeias de suprimentos. Os governos revisam suas prioridades. As famílias ajustam gradualmente seu consumo.

A questão fundamental, portanto, talvez já não seja simplesmente:

“Quanto esta crise vai custar?”

Talvez seja, em vez disso:

“Qual é o custo de acumular crises sucessivas em uma economia global que já não tem tempo suficiente para recuperar o equilíbrio entre um choque e outro?”

E talvez uma última pergunta devesse ser feita a economistas, empresas e governos:

Se o excepcional está se tornando permanente, nossas políticas econômicas devem continuar sendo concebidas principalmente para administrar crises — ou devemos agora construir economias capazes de funcionar de forma sustentável em meio a elas?

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